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Homila na Missa da 24ª Romaria da Terra e das Águas

Dom João Francisco Salm (10/09/2017)

IRMÃOS E IRMÃS!

A alegria da acolhida:

1. É muito bom poder recebê-los todos, homens e mulheres, grandes e pequenos, vindos de tantos lugares diferentes e, juntos, celebrar a Eucaristia. O Povo da Diocese de Tubarão, seus Ministros e Ministras e seus líderes acolhem e abraçam, com alegria, a cada um e a cada uma.

PEREGRINOS DE RESIDÊNCIA FIXA

Introdução – somos peregrinos:

1. A Carta aos Hebreus afirma que somos “estrangeiros e peregrinos na terra, à procura de uma pátria melhor, preparada por Aquele que não se envergonha de ser chamado ‘Nosso Deus’” (cf. Hb 11,13). Ao longo desse peregrinar, como discípulos e discípulas de Jesus, vivemos a missão de ser “fermento”, “sal” e “luz” (cf. Mt 13,33; Mt 5,13s) numa sociedade chamada a transformar-se no Reino da Justiça, do Amor e da Paz (cf. Prefácio da Missa de Cristo Rei): a nossa Casa Comum.

2. Estando em ROMARIA, celebramos a peregrinação da humanidade pelos caminhos da História, com suas lutas e seus desalentos, com suas vitórias e seus revezes, com suas alegrias e dores – sempre com Esperança! – enquanto o Senhor Deus, pela ação do seu Espírito, faz dela a sua “nação santa” em vista do “novo céu e da nova terra” (cf. 2Pe 3,13).

O Bioma Mata Atlântica – nossa Casa:

1. Peregrinos, somos todos habitantes do Planeta Terra, nossa Casa Comum, – tão ampla e tão maravilhosa! Por isso, também somos corresponsáveis pelo seu cultivo e cuidado. A nós, catarinenses, foi entregue uma parte significativa de um dos Biomas brasileiros, o da Mata Atlântica, no qual vivemos. Segundo Gênesis, tudo foi criado ao jeito de um jardim, pelo divino “jardineiro”. E o salmista, maravilhado, dirige-se ao Criador e exclama: “Visitas a terra e a regas, enchendo-a com tuas riquezas!” (Sl 65,10).

A degradação:

1. O Bioma Mata Atlântica está muito maltratado, também em nosso Estado: resta pouco de sua floresta e dos povos originários; espécies da flora e da fauna já desapareceram; pinos e eucaliptos formam o “deserto verde”, que traz consigo destruição, extinção e morte. Nossas águas, tão abundantes, tornam-se cada vez mais escassas para o consumo, porque poluídas e envenenadas. Falta-nos saneamento básico. Eventos climáticos extremos, sempre mais frequentes, são advertência da natureza agredida. A Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão é a região mais degradada do nosso Estado. O prejuízo é de todos nós. Mas, as populações que habitam em torno das lagoas e na costa marítima pagam um preço particularmente pesado.

2. Pelo uso irresponsável e o abuso dos bens que Deus colocou à nossa disposição e ao nosso cuidado, provocamos um grande mal à terra e a tudo o que nela existe. O Papa Francisco observa que “crescemos pensando que éramos seus proprietários [da terra] e [seus] dominadores, autorizados a saqueá-la. [...] Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa Terra oprimida e devastada, que geme e sofre as dores do parto (cf. Rm 8,22)” (cf. LS, n.2). O clamor da criação tão ferida, com sinais de agonia, nos adverte e pede “conversão ecológica e amor total”.

A necessidade de conversão:


1. Reconhecemos nossa necessidade de conversão constante para que, superando a indiferença e cultivando a proximidade, construamos, de braços dados com todos os homens e mulheres de boa vontade, a “Civilização do Amor”.

2. Essa necessidade de conversão e mudança se revela, hoje, ainda mais profunda, ampla, urgente e, por isso, imensamente desafiadora: olhando ao redor veem-se tantas carências, tantos apelos e oportunidades de se fazer o bem, e tantas necessidades a serem atendidas. Enquanto isso, muitos dos que receberam cargos públicos e, por isso, a incumbência e a nobre missão de promover e defender o bem e a Casa comum, já “não coram de vergonha” ao governar, legislar e julgar em vista de interesse próprio ou de grupos já por demais privilegiados. Escravos do egoísmo e da indiferença, entregues à mentira, à corrupção e ao roubo, tratam com descaso, cinismo e deboche a Casa onde habitamos, e o povo para quem deveriam ser como pai e mãe. Não há como não sentir dor, indignação e até mesmo náusea.

3. O que nos move, porém, é a Fé em Deus, Criador de tudo; a Esperança que nasce da Palavra e do exemplo de Jesus; a convicção de que o amor e a solidariedade humana e cristã são fonte, salvação e promoção da vida.

O que nos diz hoje a Palavra de Deus?

1. 1ª Leitura: Num 21,4b-9 – A Primeira Leitura desta Missa nos falava do aparecimento de serpentes venenosas causando a morte de muita gente entre os filhos de Israel. Uma consequência trágica das escolhas erradas que fizeram. Deram-se conta do seu pecado, tomaram consciência de que só Deus pode libertar da morte e conduzir para a vida, arrependeram-se, mudaram seu modo de agir e foram salvos.

2. As mudanças climáticas, os rios contaminados ou que secam, a poluição dos mares, o desaparecimento de espécies vivas, as reações da natureza ferida causando tantas mortes, são as serpentes venenosas de hoje, através das quais Deus nos chama à conversão, à mudança de atitude em relação à natureza, para nos dar vida e salvação e assim abrir um horizonte de futuro para as novas gerações.

3. 2ª Leitura: Fl 2,6-11 – Como outrora entre os Filipenses, na sociedade atual, o exemplo de Jesus humilde e simples não é muito valorizado. Enquanto isso, o orgulho, a arrogância e a ganância matam porque destroem pessoas, a natureza, a vida. Por essa razão, Paulo convida os Filipenses e a nós hoje, a encarnar os valores que marcaram a vida de Jesus e a seguir o caminho da humildade, do serviço, do amor e do dom da vida que garantem a vitória da vida plena e sem enganos.

4. Evangelho: Jo 3,13-17 – O Evangelho desta Liturgia da Exaltação da Santa Cruz nos ensina que a Cruz de Jesus é o outro nome do Amor. A Cruz cristã é a exaltação da vida. Só o amor, que é doação da vida, pode gerar vida. Foi o amor de Jesus que, pela ação do seu Espírito, transformou homens autossuficientes, egoístas, e orgulhosos e os inseriu num dinamismo de vida nova e plena. Exaltar a Santa Cruz é reconhecer em Jesus crucificado a imensidão do amor de Deus e o único remédio capaz de libertar o mundo de sua enfermidade.

5. Assim como no deserto, o que curava do veneno e salvava da morte não era o simples olhar para serpente de bronze, mas a elevação do coração a Deus (cf. Sb 16,5-7), assim é preciso elevar o coração e o agir em cada instante ao nível do amor que Jesus testemunhou quando levantado na Cruz. Jesus levantado é o ponto de referência do olhar da pessoa que crê e que vê resumida na Cruz a proposta de vida feita pelo Mestre. Só pode haver cura, conversão, transformação, mundo novo, contemplando e encarnando o Mistério daquele que foi “levantado”.

6. Também a natureza foi corrompida pelo pecado e, por isso, virou deserto; Jesus “levantado da terra” é condição para que tudo volte a florir. Entende-se, assim, por que o primeiro encontro com o Ressuscitado foi no jardim, com a mulher que o confundiu com o jardineiro.

7. “A crise ecológica [as serpentes e seu veneno] é um apelo a uma profunda conversão interior” (Papa Francisco). O Papa Francisco insiste na conversão ecológica e no amor total. Ensina que a espiritualidade cristã, proveniente de vinte séculos de experiência, é magnífica contribuição para o esforço de renovar a humanidade. Aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir, e viver. Afirma que não é possível empenhar-nos em coisas grandes apenas com doutrinas [ou projetos humanos], sem uma mística que nos anime, sem “uma moção interior capaz de nos impelir, motivar, encorajar e dar sentido à ação pessoal e comunitária” (EG, 261). E Bento XVI afirmou que “Os desertos exteriores se multiplicaram no mundo, porque os desertos interiores se tornaram muito amplos”.

8. Vivendo como Jesus viveu, com a mesma atitude de vida e assumindo a prática dele, seguindo um caminho de conversão constante, podemos salvar a Casa Comum, a nós mesmos e a humanidade.

O que vamos fazer?

1. Saulo, alcançado por Cristo, caído por terra, trêmulo e atônito, perguntou: Senhor, que queres que eu faça? (At 9,4). – E nós!? Nossa tarefa é imensa: todos, individualmente e juntos, famílias, escolas, Igrejas, governos, e toda e qualquer outra força viva, temos nossa parcela de responsabilidade. Não há tempo a perder. Só educação de qualidade, sadia formação religiosa, atitude responsável dos governantes e práticas eficazes poderão evitar que sejamos responsabilizados pelas consequências que as futuras gerações deverão suportar (cf. LS, n. 162). Precisamos mudar!

Maria – a Mãe da Casa Comum e do Cuidado

1. Nos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida e celebrando o Ano Nacional Mariano, recorremos à Mãe de Deus, mulher “pequena” e Mãe “enorme”, Mãe do cuidado e da Casa Comum... Rogue por nós ao Divino Jardineiro para que nos ajude a fazer o que nos cabe  a fim de que nossa Casa Comum volte a ser o “jardim das delícias”, sonhado e criado por Deus.

2. Enquanto peregrinos de uma “pátria melhor”, somos passantes; porém, de residência fixa, habitantes da Casa comum, que nos foi entregue como dom e tarefa, para dela cuidar e fazê-la florir.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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