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A Pastoral Secularista

Pe. Agenor Brighenti (01/11/2017)

MODELOS DE PASTORAL EM TORNO À RENOVAÇÃO DO VATICANO II – IX

Modelo de Ação


Estamos abordando, na série de artigos deste ano, os modelos de pastoral em torno à renovação do Vaticano II. Oriundos da época pré-conciliar, vimos os modelos da Pastoral de Conservação (de cristandade) e a Pastoral Coletiva (de neocristandade). O Concílio superou ambos os modelos com a Pastoral Orgânica e de Conjunto, seguida da Pastoral de Comunhão e Participação, modelo gestado pela Igreja na América Latina, no contexto das Conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979).
 
Sobretudo a partir dos anos 1990, no contexto da forte involução eclesial que vivemos por conta da crise da modernidade e o distanciamento da renovação do Vaticano II, houve a aposta nas velhas seguranças do passado, com o refluxo dos modelos da Pastoral de Conservação e da Pastoral Coletiva. E mais que isso, concomitantemente ao refluxo dos modelos de pastoral do período pré-conciliar, surgiu um novo modelo, que poderíamos chamar de Pastoral Secularista (de pós-modernidade), por tratar-se de uma religiosidade que confunde salvação com saúde física, realização afetiva e prosperidade econômica. É uma espécie de neopaganismo imanentista, uma secularização do religioso, que tem no pentecostalismo evangélico e também em certos segmentos católicos, uma comprovação.

Religião do corpo

A Pastoral Secularista é a emergência de uma religiosidade eclética e difusa, providencialista e milagreira, uma mescla das práticas devocionais pré-tridentinas com uma espiritualidade emocionalista, mercadológica e mediática. Em tempos pós-modernos, também a religião passa a ser consumista, centrada no indivíduo e na degustação do sagrado, entre a magia e o esoterismo.

Esta prática religiosa, também presente no catolicismo, se propõe responder às necessidades imediatas dos indivíduos, em sua grande maioria, órfãos de sociedade e de Igreja. É integrada por pessoas desencantadas com as promessas da modernidade, por “pós-modernos” em crise de identidade, pessoas machucadas, desesperançadas, frustradas, depressivas, sofredoras, em busca de autoajuda e habitadas por um sentimento de impotência diante dos inúmeros obstáculos a vencer, tanto no campo material como no plano físico e afetivo. Em suas fileiras, estão pessoas que querem ser felizes hoje, aqui e agora, buscando solução a seus problemas concretos e apostando em saídas providencialistas e imediatas. Nestes meios, há um encolhimento da utopia no momentâneo.

Em meio às turbulências de nosso tempo, dado que o passado perdeu relevância e o futuro é incerto, o corpo é a referência da realidade presente, deixando-se levar pelas sensações e professando uma espécie de “religião do corpo”. É verdade que, na medida em que Deus quer a salvação a partir do corpo, uma religiosidade colada à materialidade da vida pode ser porta de entrada para a religião. Entretanto, ao reduzir-se ao corpo, pode ser sua porta de saída.

Deus como objeto de desejos pessoais

A pastoral secularista, ao confundir salvação com prosperidade material, saúde física e realização afetiva, professa um paganismo imanentista. É uma espécie de religião a la carte: Deus como objeto de desejos pessoais, solo fértil para os mercadores da boa-fé, no seio do atual próspero e rentável mercado do religioso. A religião já é o produto mais rentável do capitalismo.

No seio da pastoral secularista, há um deslocamento da militância para a mística na esfera da subjetividade individual, do profético para o terapêutico e do ético para o estético. Isto contribui para o surgimento de “comunidades invisíveis”, composta por “cristãos sem Igreja”, sem vínculos comunitários. E na medida em que há uma internalização das decisões na esfera da subjetividade individual, leva as instituições ao esvaziamento, incluída a instituição eclesial, que passa a ser constituída também por membros sem espírito de pertença.

Neste contexto, a mídia contribui para a banalização da religião, não só reduzindo-a à esfera privada, como a um espetáculo para entreter o público. Trata-se de uma “estetização presentista”, propiciadora de sensações “in-transcendentes”, espelho das imagens da imanência. Uma mescla de profissão de fé a afirmação narcisista, típica de um sujeito ameaçado. Também a religião passa a ser consumista, centrada no indivíduo e na degustação do sagrado, entre a magia e o esoterismo.

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