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A jabuticabeira e seus preciosos frutos

Pe. Auricélio Costa (01/11/2017)

Não há quem não se impressione diante de uma jabuticabeira carregada de frutos. Maduros, escuros, suculentos, incrivelmente saborosos... e abundantes!... Tornam-se iscas para as aves, os bugios e os transeuntes humanos igualmente gulosos.

Em determinadas condições geológicas e climáticas, conheci jabuticabeiras que produziam até cinco vezes num ano! E os frutos sempre muito deliciosos!

Com a chegada da primavera, além dos jardins, também os pomares ficam sortidos de formas, cores e sabores! O litoral catarinense é rico em oferecer essa abundância de alimentos saudáveis! Como demoramos a perceber o nosso desrespeito para com a obra criada por Deus para todos nós e para as gerações futuras!

Contemplando essa realidade, somos convidados a aguçarmos nossa capacidade de perceber os frutos da presença de Deus em nossas vidas. Assim como a chuva que cai na terra não volta para o céu sem antes fecundar o chão, também a ação de Deus entre nós (em nós e através de nós) é fecunda e produz muitos frutos (cf Is 55,10). Dadas as inúmeras (pre)ocupações do cotidiano, corremos o risco de nos tornarmos áridos ou cegos. O coração árido é aquele que não consegue permitir que as sementes de Deus ali pudessem ser acolhidas e germinassem, produzindo, por fim, abundantes frutos.

Desta forma, a pessoa passa a viver tão escrava de seus afazeres e pensamentos próprios que não consegue perceber que sua vida está cada vez mais enfadonha, sem sentido, sem primavera! Não é tão incomum ouvirmos das pessoas: “vivo para trabalhar!”; “minha vida é só pagar contas!”; “estou afundado em problemas!”; “o inferno é aqui”... O coração árido se fechou para as novidades e surpresas de Deus. Um coração que não ri com as crianças e nem se condói com a dor alheia, está morrendo.

Mas, a Palavra de Deus nos incentiva a deixarmos nosso coração aberto para receber a visita do “ilustre Hóspede”: Jesus! A Sua chegada é motivo de festa e de transformações. Assim como a jabuticabeira, cheia de folhas verdejantes vai se preparando por longos meses para, na época certa, apresentar seus maravilhosos frutos, o coração humano precisa preparar e acalentar a presença divina. Penso que Deus olha para nós com o mesmo olhar com que o hortelão contempla as plantas em seu pomar: com esperança! Ele consegue contemplar os frutos que estão latentes (“escondidos”) dentro da árvore.

O teólogo suíço Hans Urs Von Balthasar, falecido há 25 anos, refletiu sobre essa realidade em que muitos corações não conseguem produzir os frutos da Graça de Deus. Lembrando-se de São João da Cruz, ele disse que vivemos, hoje, “noites escuras coletivas”. Elas produzem medo, insegurança e até desespero; mas também expectativa, perplexidade e esperança. Nossa sociedade talvez esteja passando por essa experiência. Cabe à Igreja de Jesus lançar luzes sobre os grandes problemas que enfrentamos. Diante das crises morais, econômicas, sociais, políticas e de fé, o Espírito Santo está suscitando vozes no seio da Igreja que nos ajudam a “iluminar” estas realidades. Uma dessas vozes é a do Papa Francisco.

O teólogo citado escreveu um livro chamado “Só o Amor é digno de fé”. Ele sugere que, movidos pelo verdadeiro Amor, percebamos as “ilhas de humanidade”, isto é, sinais de esperança em meio ao caos hodierno. Existem abundantes frutos de amor em toda a ação da Igreja. É só prestar atenção e o leitor perceberá que aí mesmo, na sua comunidade, existem muitas destas “ilhas”: expressões de caridade, de solidariedade, de misericórdia! Isso se expressa em forma de voluntariado, de dedicação abnegada nos vários organismos religiosos e pastorais!... Quanta vida doada por amor! Quanto saber compartilhado! Quanta oração fraterna e fecunda! Enfim, podemos mesmo dizer que o Reino de Deus está crescendo! Ele vai crescendo apesar de nossa realidade tão pecadora e frágil.

Com a chegada do final de ano nossas forças parecem ir se extinguindo... Mas o exemplo da jabuticabeira repleta de frutos deve nos ensinar que é tempo de frutificar. Nossa energia vital vem do Espírito Santo e não se acabará nunca. Mesmo com o cansaço físico-emocional, ainda é preciso oferecer o que temos de melhor: os nossos preciosos frutos da fé cristã!

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