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Somente em Jesus o martírio tem pleno sentido

Pe. Auricélio Costa (01/03/2018)

Eles vão entrando curiosos e silenciosos no Santuário. Persignam-se com água benta, andam pelos corredores da nave central, ajoelham-se, alguns rezam por uns instantes no banco... e dirigem-se para o altar onde está a imagem de Albertina. São os romeiros e devotos... atraídos pelo martírio da jovenzinha de Imaruí... impressionados com a coragem da “santinha” e com a maldade do seu algoz.

Os mártires são tesouros de nossa Igreja! Em todos os tempos a Igreja tem colhido seus mártires. Mas nunca como nos últimos séculos! Nem no tempo das “grandes perseguições” romanas! Os mártires mexem com nossa coerência religiosa, com nossa fé batismal, às vezes tão inexpressiva e estéril.

Como não se deixar comover pelo exemplo dos apóstolos Pedro, Paulo, Bartolomeu...? E a tenacidade dos jovens Sebastião, Cecília e Luzia? Soa e ecoa em nossos ouvidos o exemplo dos mártires dos primórdios do Cristianismo sendo entregues ao fogo, às caldeiras de água ou óleo ferventes, pregados em cruzes, decapitados, esfolados vivos, esquartejados, lançados às feras nas arenas esportivas... S. Policarpo, Bispo de Esmirna, condenado por Marco Aurélio no ano 155, antes de ser queimado vivo proclamou: “Sede bendito para sempre, ó Senhor; que o Vosso Nome adorável seja glorificado por todos os séculos”.

O que pensar dos mártires do último milênio, desbravando continentes e os mais diversos perigos!... enfrentando poderosos e perseguições e doenças!... Abandonando seus torrões-natais e familiares eles empreenderam viagens para lugares desconhecidos... e lá amaram outros povos, absorveram outras culturas... e permaneceram fiéis ao ideal que moveu seus corações: Jesus Cristo e o Seu Reino!

Nos nossos dias continuamos a receber notícias de homens e mulheres capazes de sofrer toda perseguição e até a morte por causa de Jesus! A Igreja continua a colher essas belas flores no jardim da humanidade. E não há como ficar insensível diante do testemunho de agentes de pastoral, leigos ou consagrados, que desbravam as terras de missões (como a Amazônia e países da Ásia e da África) e as periferias existenciais de nossas cidades, com suas favelas e edifícios e a complexidade de nosso mundo hodierno!

Inflamam amor nos corações das pessoas, promovem a defesa da vida e semeiam a justiça e a paz! Estão ali por inteiro e dispostos a derramar seu sangue pela Causa do Reino, isto é, por Jesus Cristo!

É Ele o grande referencial, o sentido mais profundo da entrega da vida. Pois Ele mesmo, sendo Deus, fez-se oblação, vítima pascal, oferecendo-se no altar da última Ceia, bem como no altar do Gólgota. A vida toda de Jesus foi uma entrega ao Pai por causa do Reino. Foi um martírio que culminou com a entrega no Getsêmani e, por fim, no Calvário. Ele foi abandonado pelos amigos, caluniado, flagelado, coroado de espinhos, humilhado, crucificado e morto entre dois ladrões. É o “servo sofredor” de Isaías (Is 52,13-53,12).

Eis Seu segredo: o Amor! Amou plenamente o Pai: “Seja feita a tua vontade!” (Mt 6,10). E amou plenamente a humanidade: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos! E eu chamo vocês de amigos!” (Jo 15,13).

Há pessoas dispostas a morrerem pelas mais diversas “causas”. O mártir cristão tem seu coração voltado para a Vida: quer viver, promove a vida, crê na Vida eterna e, por tudo isso, compreende que a sua morte pode gerar mais vida. Foi esse o argumento do escritor cristão do século II, Tertuliano, na sua missiva ao mesmo imperador Marco Aurélio, que não adiantava perseguir e matar mais cristãos porque “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.

Certamente não é em vão que estão sendo derramados rios de sangue de cristãos nas perseguições religiosas, especialmente de extremistas muçulmanos. Como se esquecer do recente martírio dos 21 cristãos coptas egípcios decapitados vivos na Líbia, em 2015, pelo Estado Islâmico, diante das câmeras de TV?!

O testemunho dos mártires de todos os tempos deve nos animar a vivermos nossa fé batismal cada vez mais intensamente. Neste ano dos Leigos e Leigas temos a oportunidade de nos valorizarmos, cultivarmos nossa pertença eclesial, nos aproximarmos mais de Jesus e dos irmãos! Através da Igreja (que somos nós!) Cristo continua se imolando e se martirizando nos altares de nossa existência. Como São Paulo, podemos dizer: “Completo na minha carne o que falta a paixão de Cristo, no seu corpo que é a Igreja” (Col 1,24).

Diariamente o Santuário de Albertina recebe romeiros da região e de outros municípios. O testemunho daquela que disse: “Não, é pecado! Deus não quer” continua tocando corações e aproximando as pessoas do Mestre Jesus; Ele que deu a Sua própria vida a fim de alcançar para nós a Vida verdadeira! Aleluia!

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