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Boa notícia e encantamento

Dom João Francisco Salm (07/06/2017)

Depois do Sínodo de 2012, sobre a Nova Evangelização para a Transmissão da Fé Cristã, o Papa Francisco nos convidou a todos para uma evangelização marcada pela alegria e capaz de seguir caminhos novos para a vida e a missão da Igreja. Essa missão deve realizar-se em três âmbitos: – na pastoral ordinária, junto aos fiéis que frequentam regularmente a comunidade ou que, pelo menos, de alguma forma conservam uma fé católica intensa e sincera; – junto às pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo e já não sentem a consolação da fé; – e junto àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre o recusaram (Cf. EG n. 14).

Desde o início do seu Pontificado, em 2005, Bento XVI lembrava que é preciso redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com clareza e visibilidade sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Advertia que muitas vezes nós nos preocupamos mais com as consequências sociais, políticas e culturais da fé do que com a própria fé; como se não nos déssemos conta de que muitas pessoas experimentam uma profunda crise de fé. A verdade é que nossa cultura já não é mais cristã como em outros tempos (Cf. PF n. 2). Para muitos, Jesus não é mais ou nunca foi a grande referência de suas vidas.

O Documento de Aparecida mostra grande preocupação com essa realidade. Por isso, faz um apelo à coragem de deixar de lado tudo o que já não ajuda a transmitir a fé, e recomeçar a partir de Jesus Cristo, como num processo de verdadeira “conversão pastoral” (Cf. DAp n. 365). Conversão significa mudança, transformação (neste caso, da pastoral e de seus agentes).

A fé propriamente dita e suas consequências; o anúncio explícito da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo; as consequências pessoais, sociais econômicas, culturais, políticas etc., na vida de quem crê: é a relação fé e vida que necessita de equilíbrio e harmonia no coração da pessoa, na família e na comunidade cristã.

Na Assembleia Geral deste ano, os Bispos do Brasil aprovaram um documento sobre a Iniciação à Vida Cristã, em que propõem como itinerário para formar discípulos missionários, uma dinâmica, uma pedagogia, uma mística, que nos convidam a entrar sempre mais no mistério do amor de Deus. Nesse documento a Igreja é apresentada como uma comunidade “querigmática e missionária”, “mistagógica e materna” (cf. IVC n. 107-115).

“Querigma” é o conteúdo central do anúncio do Evangelho; é a “boa notícia”; é o próprio Jesus Cristo, a “água viva”; é o centro daquilo que se anuncia e que causa alegria e entusiasmo, levando as pessoas ao encantamento por Jesus. “Mistagogia” nos faz lembrar a palavra “mistério”. É o que se sente quando se está diante do insondável, daquilo que é maravilhoso e que é o próprio mistério de Deus. A celebração, a oração, a contemplação, a leitura orante da Palavra constituem o que entendemos por mistagogia: um anúncio que conduza ao mistério de Deus.

Tertuliano afirmou: “os cristãos não nascem, se fazem”. A “boa notícia” e o “encantamento” geram o processo da Iniciação Cristã que conduz para dentro do mistério amoroso do Pai e insere na comunidade eclesial, para professar, celebrar, viver e testemunhar a fé em Jesus Cristo, no Espírito Santo (cf. IVC n. 61).

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