Logotipo

A morte e os mortos, o que a Igreja ensina?

Jornal O Paroquial (02/11/2018)

Para responder algumas dúvidas sobre o Dia de Finados e outros, trazemos algumas questões relatadas no livro “Como será depois? O sentido de viver e morrer na tradição cristã”, escrito pelo Bispo Auxiliar de Porto Alegre Leomar Antonio Brustolin, doutor em Teologia.

Qual é o sentido do Dia de Finados?

Desde o século V, a Igreja já dedicava um dia por ano para rezar pelos finados, principalmente aqueles pelos quais ninguém reza nem se lembra. Assim, no dia 02 de novembro recordamos os finados, aqueles que chegaram ao fim de seu tempo da terra. Esse dia foi instituído no século XIII para recordar que, depois do dia primeiro de novembro, quando a Igreja celebra todos os santos, deve-se rezar por todos os falecidos. O Dia de Todos os Santos celebram os que morreram em estado de graça, canonizados ou não pela Igreja Católica. O Dia de Finados celebra a multidão dos que morreram e não são lembrados na oração de seus familiares e amigos, estejam eles no céu ou no purgatório. Podemos assim fazer caridade e rezar por aqueles que foram esquecidos.

O que é a morte?
Fomos criados para a vida. A morte é estranha à condição humana. O Criador no fez para viver, mas o ser humano quebrou a aliança de amor com Deus, que resultou na morte. É por estar fora dos planos de Deus para a humanidade que a morte nos violenta tanto. Por isso é tão difícil lidar com a perda de alguém. Jamais aceitaremos perder quem amamos. Podemos até nos consolar, mas não compreendemos totalmente. A morte é um mistério. A Igreja, baseada na Bíblia, ensina “que a morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo e da graça, e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto  divino e para decidir o seu destino último”. É o fim da peregrinação d aterra, fim do tempo, hora da decisão sobre o destino último que escolhemos ao longo da vida e início da vida em Deus, vida eterna.

Qual a crença do católico a respeito da vida eterna?
O Papa Paulo VI nos ensina; “Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo, quer devam ainda se purificar no purgatório, quer sejam recebidas por Jesus no paraíso, no mesmo instante em que deixam os seus corpos, como sucedeu o Bom Ladrão, formam o Povo de Deus, para além da morte, que será definitivamente vencida no dia da ressureição, quando essas almas se reunirão a seus corpos”.

Como seremos julgados?

Após a morte, ensina a Igreja, a pessoa ficará diante de Jesus Cristo, que lhe abrirá as possibilidades do céu, do purgatório ou do inferno, mediante as escolhas realizadas ao longo da vida. O conteúdo do julgamento é a vida de cada pessoa, pois nela esteve em jogo a relação com Jesus Cristo. O critério para o julgamento é o amor. Isso vale para todo ser humano, até mesmo para aquele que não conheceu Jesus, o nosso Redentor. O Evangelho escrito por São Mateus nos alerta que, na ocasião do julgamento, Jesus dirá, aos que praticaram o amor: Vinde benditos do meu Pai, e recebei a herança...Pois tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era forasteiro e me acolheste; estava nu, e vestistes-me; estava doente e preso e me visitastes. Cada vez que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

O que é a ressurreição?
Quando alguém morre e é sepultado ou cremado segundo a fé católica, a alma dessa pessoa se apresenta diante de Deus para o juízo individual. Então ele decide sobre o céu, o purgatório ou o inferno. Todos, porém, esperamos a vinda de Jesus no final dos tempos, quando ele irá julgar os vivos e os mortos, como rezamos no Creio. Será o Juízo Universal. Ninguém pode prever ou anunciar esse dia, pois depende totalmente da vontade do Pai. A vinda de Cristo será sua parusia: sua visita. Nesse dia ocorrerá a ressurreição dos mortos.

Como podemos saber que será assim?
Tudo que a igreja acredita sobre a vida eterna baseia-se totalmente na páscoa de Jesus Cristo. Jesus foi crucificado e morreu publicamente. No entanto, todos que presenciaram isso são unânimes em relatar que viram Jesus ressuscitado. Não afirmaram que ele retornou a esta vida, mas que ele vive na glória de Deus e se manifestou aparecendo vivo a seus discípulos.

O que não é ressurreição?
A ressurreição dos mortos pretende exprimir uma vida qualitativamente nova, que não conhece mais a morte e que não pode ser nem mesmo o prosseguimento desta vida mortal. Paulo afirma que “Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais” (Rm 6,9). Dessa forma, não é a ressurreição o conceito de retornar a vida e morrer novamente. A vida da ressurreição não é um continuar a viver depois da morte, mas sim a derrota da morte na vitória da vida nova eterna. Qualquer outra teoria sobre o que existe após a morte pode convencer a quem não tem fé. A ressurreição depende totalmente de confiar no que Jesus prometeu e cumpriu na páscoa.

Por que rezar pelos mortos?
Deus conhece mais as pessoas do que nós. Por isso, alguém se poderia perguntar: por que então achar que Deus precisa de orações para mudar a situação das de uma pessoa falecida? Na realidade, Deus, através da morte e ressurreição de Jesus, já realizou tudo para nossa salvação, mas não esqueçamos que as pessoas são totalmente livres, tendo vontade e consciência próprias. Ora, se alguém, na sua autonomia, não consegue entender a realidade que Deus oferece, nossa oração pode ajudá-la a compreender algo que sozinha não é capaz. A oração solidária pode assim ajudar muito a pessoa a escolher o amor de Deus.

Porque a missa de sétimo dia?
A missa de sétimo dia se fundamenta no texto do livro dos Macabeus: “Santo e salutar pensamento este de orar pelos mortos. Eis porque ofereceu um sacrifício expiratório pelos defuntos, para que fossem livres dos seus pecados” (2Mc 12,45). A Igreja Católica sempre procura rezar missas pelos falecidos no dia de seu sepultamento. No Brasil, contudo, tornou-se tradição realizar a missa no sétimo dia após o falecimento, seja porque nem sempre fosse possível ter um padre para a missa de corpo presente, seja porque antigamente se demorava sete dias até reunir todos os parentes para celebrar a morte de um ente querido. Igualmente, a missa do trigésimo dia de falecimento é um costume salutar, mas que está mais incutido na cultura do povo brasileiro do que nas prescrições litúrgicas da Igreja. Todos os dias podemos e devemos rezar pelas pessoas falecidas. 

Qual o significado das flores e das velas depositadas no cemitério?

O costume de levar flores ao túmulos recorda que a fé dos cristãos é marcada pela esperança da feliz ressurreição. Acredita-se que os justos florescerão no jardim de Deus. Enfeitar os túmulos expressa saudade, gratidão, homenagem, mas acima de tudo fé na ressurreição. Já a vela que ascendemos junto ao túmulo, temos que neste mundo o amor vivido é a chama que não se apaga. Seu testemunho fica como uma luz acesa no coração de quem continua na caminhada. Esse é o significado das velas acesas nos túmulos, já que, afinal, nossos irmãos não se apagaram. Eles brilham diante de Deus da Luz. As velas renovam nossa fé na luz da ressurreição.

Recordar, viver e esperar
Diante das perdas, é preciso aprender a viver sem a pessoa que partiu. A saudade, a dor podem ser transformadas com a lembrança dos bons momentos vividos; as dificuldades superadas, as festas celebradas, as tristezas partilhadas. O cristão, mesmo diante do luto, continua a viver com serenidade. Todo dia é ocasião de renovar as forças e caminhar. A vida continua sendo bela e repleta de motivos para a agradecer a Deus por tantos dons. Somos peregrinos da esperança. Seguimos em frente recordando tantas pessoas que fizeram parte de nossa história. Buscamos uma felicidade plena que só em Cristo encontraremos. Cada experiência vivida, com suas alegrias e preocupações, nos impele a dias melhores. Mesmo quando a noite vai sufocar a autora, a esperança do amanhecer transforma a escuridão.

MAIS NOTÍCIAS