Palavra do Bispo

Quando voltar é progredir?

 

“Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12)

Era uma época de muita miséria. O Profeta Joel, vendo o que acontecia, identificou a causa daquele sofrimento: o povo abandonara o Templo e Deus havia ficado de lado. Movido de compaixão, Joel então reage, exortando o povo à oração e à conversão: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). Na língua hebraica, a expressão “convertei-vos” tinha o sentido de “arrepiar caminho”, regressar imediatamente. O povo que dera as costas a Deus devia voltar novamente o coração para Ele, e retomar o culto no Templo, um culto autêntico, que manifestasse a conversão interior.

Voltar, regressar ou retornar pronta e decididamente – “arrepiar caminho” – não significa regredir. “Para quem está na estrada errada, progredir é dar meia-volta e retornar à direção correta” (Clive S. Lewis, autor cristão, séc. XX). Quem faz o caminho quaresmal progride enquanto retorna ao “primeiro amor” (Ap 2,4), avançando em direção à Páscoa. 

No séc. V, já São Leão Magno, papa, dizia num sermão: “É próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. [...] Não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos, sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da redenção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado”.

“Progredir no caminho da perfeição”. Tornar-se melhor. Não serve, portanto, uma simples mudança. Somente mudar ainda não é crescimento e, talvez, nem mesmo seja qualquer melhora. Alguém já afirmou: “Crescimento á a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento”.

Todos os anos, no Tempo da Quaresma, a Igreja no Brasil propõe a Campanha da Fraternidade. É um auxílio para quem percebeu a necessidade de conversão, de retorno, de mudança continuada em vista do crescimento na perfeição, pela vivência do Mandamento Novo do Amor (Jo 15,12).

“Fraternidade e vida: dom e compromisso”. “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34): respectivamente, tema e lema da Campanha deste ano, advertem-nos e nos ajudam a entender que a conversão que se pede não é algo apenas individual. Isso está de acordo com o que dizia São Leão Magno: “Devemos empenhar-nos todos...” para que pessoa alguma fique fora. “Ver, compadecer-se e cuidar”: é fraternidade ativa e solidária.

O objetivo geral da CF 2020 é este: “Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum”.

Está ao alcance de todos nós, conversar sobre esse assunto com os familiares, com as pessoas que encontramos, individualmente ou participando de grupos. Bela iniciativa seria reunir pessoas para um tempo de oração e de reflexão a partir da Palavra de Deus e do assunto da Campanha da Fraternidade.

O que você percebe que precisa fazer para progredir?

 

Dom João Francisco Salm
Bispo Diocesano

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