Dicastérios da Santa Sé lançam documento “Um caminho de Esperança”
16/09/2026 21:02 | ASCOM - Diocese de Tubarão
No aniversário da declaração conciliar, que abriu um novo capítulo na história das relações entre católicos e fiéis de outras religiões, os Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso publicam o documento “Um caminho de esperança”. Um convite a combater o fundamentalismo e o extremismo, abandonar “lógicas de defesa, hostilidade ou conquista”, proteger a liberdade religiosa e construir uma convivência fundada na fraternidade.
Na época, foi um verdadeiro marco. Um marco nas relações entre católicos e judeus e com os fiéis de outras religiões, além de um farol de esperança no período pós-guerra. Hoje, sessenta anos depois, a Declaração Conciliar Nostra Aetate continua sendo um ponto de referência para “refundar essa esperança em nosso mundo devastado pela guerra e em nosso meio ambiente degradado”, além de um paradigma para orientar as escolhas pastorais e teológicas da Igreja, enquanto as divisões prevalecem sobre o diálogo, a liberdade religiosa é constantemente violada e o nome de Deus é traído e usado para legitimar a violência e o terrorismo.
Não à discriminação e à perseguição
É por isso que, na sexta década desta “breve, mas ousada” declaração conciliar, três Dicastérios da Cúria Romana — para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso — publicam “Um caminho de esperança”, um documento que repercorre as etapas essenciais do diálogo desde a Nostra Aetate, avaliando seus desafios e objetivos e delineando perspectivas para o futuro. Tudo isso para relançar uma mensagem atemporal:
A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião.
O caminho do Concílio até hoje
A reflexão do documento se desdobra a partir de uma questão premente e de relevância atual: “Como viver concretamente o chamado à fraternidade universal em sociedades marcadas por crescente diversidade cultural e religiosa, guerras e violência, e caracterizadas por uma crescente tendência à secularização?” O documento, com aproximadamente vinte páginas, é de autoria dos prefeitos dos respectivos Dicastérios, os cardeais Víctor Manuel Fernández, Kurt Koch e George Koovakad, e seus secretários, os monsenhores Armando Matteo, Flavio Pace e Indunil Janakaratne Kodithuwakku Kankanamalage. O documento traça o caminho desde a gênese da Nostra Aetate, na época considerada “uma resposta às trágicas consequências do antissemitismo que culminaram no Holocausto”. Sua publicação em 28 de outubro de 1965 marcou “uma mudança profunda”, pois, pela primeira vez, a Igreja afirmou explicitamente que “não rejeita nada do que é verdadeiro e santo” em outras religiões e convidou os fiéis a considerarem esses preceitos e doutrinas “com estima e respeito”. A outra declaração, Dignitatis Humanae, acrescentou um princípio: “Nenhuma relação respeitosa com outras religiões é sincera e praticável sem um respeito concomitante pela liberdade religiosa dos outros”. Com a mesma “convicção”, os signatários apelaram para “a mesma liberdade para os cristãos nos países onde são minoria”, destacando a “perseguição” que os cristãos ainda sofrem hoje, em várias partes do mundo, por parte de grupos religiosos extremistas.
Toda perseguição motivada por religião é sempre uma violação da dignidade humana. É urgente encontrar uma resposta comum que, no espírito da Nostra Aetate, promova o respeito, o diálogo e a convivência pacífica entre todos.
A relação entre judeus e cristãos
O documento Vaticano dedica um espaço considerável à natureza específica da relação entre cristãos e judeus, desde as suas raízes comuns no Antigo Testamento até à recomendação do Concílio de “mútuo conhecimento e estima” e diálogo “fraterno”. Um Caminho de esperança, seguindo a mesma linha, reitera que “a aliança de Deus com o povo judeu é irrevogável, e isso desafia constantemente a Igreja”. Isto não significa que “a aliança com o povo judeu seja paralela ao caminho cristão da salvação”: para a Igreja, “Cristo é o único redentor”. Contudo, “esta aliança irrevogável tem um significado teológico”; consequentemente, “não podemos prescindir uns dos outros”.
A luta comum contra o antissemitismo
A solidariedade ao povo judeu inclui também uma “luta comum” contra o antissemitismo. A Nostra Aetate deplorou o ódio e a perseguição antijudaica “em qualquer época e por qualquer pessoa”, inclusive dentro da Igreja. Recordam-se as condenações dos Papas, particularmente contra o Holocausto. Observa-se que os conflitos que eclodiram no Oriente Médio também “deixaram sua marca” no diálogo entre judeus e cristãos. “Muitas pontes de comunicação vacilaram e continuam sendo testadas pela diferente leitura dos eventos subsequentes, muitas vezes não unânime mesmo dentro das respectivas comunidades religiosas”, afirmam os Dicastérios, exortando a Igreja a manter e fortalecer ainda mais esse “mútuo conhecimento e estima” que se mantive forte ao longo de sessenta anos de “trabalho conjunto”.
Frutos visíveis do diálogo
Este trabalho conjunto, destaca o texto, também produziu frutos “visíveis” no diálogo com o Islã e outras religiões, como o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo, o Sikhismo, o Xintoísmo, o Taoísmo, o Confucionismo, o Zoroastrismo, bem como com religiões tradicionais africanas.
Foram estabelecidas amizades duradouras entre líderes religiosos, foram lançados projetos educacionais e sociais conjuntos e declarações conjuntas foram publicadas diante de tragédias humanitárias, guerras ou crises ambientais.
Fundamentais a este respeito são o diálogo teológico entre especialistas ou o diálogo monástico inter-religioso, bem como a experiência vivida silenciosa e discreta de sacerdotes, religiosos e leigos em bairros multirreligiosos, “onde o simples fato de viver em paz, de estar presente uns para os outros — como vizinhos — já é um testemunho”. Todos esses resultados, “às vezes embrionários, invisíveis, mas fecundos”, encarnam a intuição da Nostra Aetate:
Testemunhas do amor de Deus
Os três Dicastérios, portanto, não poupam críticas às manifestações de “islamofobia” que “não distinguem adequadamente os casos de fundamentalismo e violência da convivência pacífica de outros muçulmanos que se integram e trabalham nos países que os acolhem”. “Devemos agradecer às comunidades cristãs que cresceram num espírito de acolhimento e também numa maior compreensão e respeito pelos muçulmanos”, lê-se num trecho.
Os pobres: “A bússola”
O documento Vaticano — que repercorre o magistério dos Papas de Paulo VI a Leão XIV — centra-se na importância do diálogo neste período histórico. Indica o “acolhimento ou a rejeição” dos pobres como um “critério de discernimento universal” para entender se estamos caminhando na direção certa. Eles são “a bússola”: “A atenção concreta aos mais vulneráveis é o indicador essencial para avaliar a correção de todo projeto, seja ele político, econômico, social, acadêmico, religioso ou cultural.”
As dificuldades do diálogo
As “dificuldades do diálogo” hoje são destacadas entre quem teme o “relativismo doutrinário ou uma diluição da identidade religiosa”, relações “historicamente conflituosas” ou a memória de “feridas antigas” que dificultam a confiança recíproca. Os próprios fundamentos do diálogo são minados pelo “crescimento do fundamentalismo, pela persistência de preconceitos, pela manipulação política das afiliações religiosas ou pela violência em nome de Deus”. Soma-se a isso, nas sociedades secularizadas, a marginalização ou a instrumentalização do discurso religioso, “reduzido a folclore, opinião subjetiva ou completamente obscurecido”.
Comportar-se como irmãos
O caminho, portanto, continua sendo “desafiador” e “exige humildade, coragem e discernimento”. O diálogo, reitera o documento, não é uma “estratégia” nem uma renúncia à própria identidade, mas sim um “autêntico caminho evangélico”, que pressupõe “uma clara consciência da própria identidade religiosa e cultural, junto com uma abertura real ao outro”. “Respeito” e “estima” são “fundamentos imprescindíveis” para “superar atitudes de exclusão, desprezo ou indiferença que há muito prevalecem”.
Não podemos invocar Deus como Pai de toda a humanidade se nos recusamos a nos comportar como irmãos daqueles criados à imagem de Deus.
Abandonar a lógica da hostilidade
Diante daqueles que hoje “fomentam divisões e preparam conflitos”, os fiéis de diferentes tradições são chamados a “buscar, com clareza e esperança, as condições para a convivência pacífica”. Para alcançar esse objetivo, devemos “abandonar as lógicas de defesa, hostilidade ou conquista e adotar uma atitude aberta, benevolente e corajosa”.
Artesãos da Paz
O apelo é dirigido a todos: “Tornar-se construtores de pontes, não de muros”, “artesãos da paz e da fraternidade”, capazes de “acolher os outros em suas diferenças” e “colaborar na construção de uma sociedade mais justa e humana”.

